Como anda sua memória de mãe?

22 de jun de 2017

A arquibancada estava tão fria quanto o ar que eu sentia circular na minha barriga. Finalmente chegara o dia da primeira competição de natação da Amanda.

Ela tinha 7 anos e vinha treinando havia meses para aquele momento. Honestamente, quando a matriculei, já com certo atraso, tinha como objetivo exclusivo que ela não afundasse na água. Algum tempo depois descobri que, a partir de certo nível, já seria possível participar de provas. Logo veio o primeiro convite. A participação era opcional, mas ela nem hesitou e foi apoiada.

Sempre fui metódica, dessas pessoas que costumam fazer listas, tentam se antecipar a tudo e deixam bilhete perto da porta para não esquecer coisas importantes. Acho que minha mente não para nem quando estou dormindo. Depois que me tornei mãe isso piorou. Assim, deixei para a véspera a organização da mochila. Seria um dia bem tranquilo e em 5 minutos tudo estaria em ordem.

Como o destino prega peças em quem tenta controlar o futuro, o dia anterior ao evento foi, infelizmente, bastante atípico. Perdi um tio. Em um minuto tudo virou do avesso e a mochila tornou-se algo totalmente secundário. Exausta ao voltar do velório, quase de madrugada, lembrei-me de preparar tudo para Amanda arrasar nas águas da escola na manhã seguinte.

O ar quente e úmido do ambiente embaçava meus óculos o que, de tempo em tempo, distraía meu olhar fixo na direção da porta do vestiário feminino. Aguardando ali no meio de tantos pais, alguns novatos como eu, outros já claramente veteranos recapitulei quantas coisas havia feito em menos de 24 horas e concluí que uma mãe pode realmente realizar um milhão de tarefas sem deixar a peteca cair. As crianças começaram a surgir num divertido desfile de roupões estampados de princesas e super-heróis. Ali comecei a torcer para que Amanda tivesse um desempenho que a satisfizesse, pois para mim qualquer resultado seria maravilhoso. E eu já havia checado: todos os alunos receberiam uma medalha pela participação. Tudo sob controle.

O banco ao lado da piscina já estava repleto de nadadores mirins e me preocupei com a falta da Amanda. Será que ela havia desistido? Decidi abrir mão do meu lugar para checar o que estava acontecendo lá dentro. Enquanto visualizava o complicado trajeto que faria para chegar lá alguém tocou no meu ombro: “Moça, a professora está te chamando” e apontou para o outro lado da piscina. Quando percebi a aflição da treinadora tive apenas tempo de pensar “Meu Deus do céu…” quando ela me interrompeu dizendo “Não veio o maiô!”. Numa fração de segundo a minha capacidade de leitura labial implorava pelo engano, minhas pernas amoleceram e os meus ouvidos tamparam como se tivessem sob a água. Praticamente surda constatei não ser um sonho. Na hora veio um flash do bendito maiô solitário no varal de casa. Uma amiga cuja filha também competiria notou minha reação catatônica e teve a brilhante ideia de buscar no carro o collant de ballet da menina para que a Amanda não deixasse de competir (nunca vou me esquecer dessa atitude). Aos poucos o som ao meu redor foi voltando ao normal. Então a professora veio me perguntar se eu autorizava Amanda a usar um maiô dos Achados e Perdidos. Só tenho uma coisa a dizer: “Senhor, abençoe a cabeça-de-vento das criancinhas”. Aprovei a ideia imediatamente com a condição de que aguardassem minha amiga voltar para dar início às provas. Não seria justo.

Aproveitei o momento e fui até o vestiário, seguida por olhares críticos e curiosos. Eu precisava checar o estado emocional da Amanda e acalmá-la dizendo que tudo seria resolvido em poucos minutos. Pedi desculpas e fiquei aliviada ao vê-la tranquila. Voltei rapidamente para um canto livre da arquibancada ignorando comentários maldosos pelo caminho. Ali me espremi e cliquei o que foi possível. E esta foi a minha vitória do dia.

Ela levou para casa uma medalha dourada de participação e eu, uma lição inesquecível: a gente falha. E daí? Quem poderia me julgar? Quem sabia o real motivo que me levara a organizar a mochila tão distraidamente?

O HD da cabeça de uma mãe é um lugar absurdamente lotado de informações onde somente uma boa limpeza na memória pode otimizar sua performance. É preciso, de vez em quando, deletar sim os arquivos antigos a fim de abrir espaço para novos e urgentes. Sabemos que eles nunca param de chegar. As pessoas julgam sem saber, cobram sem poder e não compreendem o que toda mãe já decorou: só erra quem se dispõe a fazer, quem fica assistindo vive na perfeição.

Autora: Nathália Alves é publicitária, pesquisadora de mercado há 16 anos e mãe de duas adolescentes. É autora do instagram @repertoriodemae onde registra diálogos divertidos das filhas assim como outros pensamentos de Mãe e de Mulher. (Contato: repertoriodemae@gmail.com)