Quem é o meu filho na escola?

01 de jun de 2017

Amanda tinha 1 ano e 2 meses quando começou a andar. Pensei: “Legal! A partir de agora ela já pode ir para a escolinha!”. A ideia parecia ótima para mim. No entanto soou como castigo para alguns familiares: “Ai, coitadinha!”, “Nossa, mas já?”. Mesmo com todo esse incrível apoio, continuava sendo necessário eu voltar ao trabalho e ela, mais do que nunca, aprender a compartilhar. Sendo a primeira neta de ambos os lados, a escola seria o único lugar possível para Amanda começar a viver esta real experiência. A pediatra também não se mostrou muito a favor. Explicou a esta mãe de primeira viagem aqui sobre as inúmeras doenças que uma criança pode contrair num mesmo espaço com tantas outras, etc. Ocorre que, ao invés desta informação me bloquear, só me fez concluir que era urgente tirar a Amanda daquela bolha-protetora em todos os sentidos. Assim, lá fui eu enfrentar as caras feias e o mundo. E lá foi a Amanda enfrentar a vida em sociedade.

Tudo correu bem nas primeiras semanas até que recebi um bilhete na agenda da escolinha informando que ela havia sido “mordida” no braço por um coleguinha. Mal terminei de ler o que estava escrito e, tremendo, fui conferir o bracinho dela debaixo de uma manga comprida. Ele trazia uma belíssima marca de arcada dentária tamanho PP. Ela balbuciou: “Dodói!”. Juro! A primeira coisa que pensei foi que ela nunca mais voltaria àquela escola. A segunda foi que ouviria dos familiares-gente-boa o famoso “Eu te disse”. Como não havia condições de tirá-la da escola naquele momento, engoli, mas caprichei na resposta ao bilhete recebido. Sabe aquelas respostas de duas páginas? Afinal, como poderia meu pobre bebê indefeso ter sido “atacado” em plena escola? Que negligência teria sido essa das professoras que não impediram tal agressão? Como permitiram que isso acontecesse? Como seria possível recuperar a partir dali a confiança na escola? Dentre outros questionamentos bem exagerados – hoje consigo enxergar. De volta, ganhei um gelado “Ok, ciente“.

Várias semanas depois, quando a marca no bracinho dela já havia desaparecido e eu esquecido o tamanho desaforo, eis que chega um novo bilhete: “Mamãe, informamos que esta manhã a Amanda mordeu um coleguinha na escola. A mãe dele já foi notificada. Estamos trabalhando com todos os alunos no sentido de conscientizá-los”. Tomei um tremendo choque. Sendo a mãe da mordedora da vez, a ficha caiu e meu cérebro de mãe-leoa rapidamente formulou um novo pensamento sobre o quanto é difícil conter o que acontece dentro de uma escola, que não há realmente como descobrir ao certo quem ensinou ou quem aprendeu a morder, mas o principal: que se você tem filhos, deve se preparar para quebrar a cara de vez em quando. A não ser que você aprenda a evitar frases como “o meu filho nunca faria isso” ou “o meu filho não é assim”. É difícil, mas já é um excelente começo. É óbvio que uma mordida instintiva de um bebê de 1 ano não pode ser comparada a uma mentira calculada de um adolescente de 15 anos, por exemplo. Mas se pararmos para analisar, independente da idade de nosso filho, as dúvidas que nos chegam são (ou pelo menos devem ser) sempre as mesmas no final: Como meu filho se comporta na escola? Em quem ele se espelha? Quem ele imita? Afinal, quem é o meu filho “em sociedade”? Sim, pois da mesma forma que nós adultos nos vemos obrigados a vestir certas máscaras e assumir determinados personagens em nosso ambiente de trabalho, também fazem as crianças no ambiente escolar. É uma questão de pura adaptação, integração e sobrevivência.

Claro que não era exatamente isso que eu imaginava quando quis proporcionar à Amanda a experiência do coletivo, mas, novamente, lembremos que o controle é mínimo sobre o que os nossos filhos aprendem com os filhos dos outros. É quase uma loteria.

Transferindo resumidamente esse aprendizado da primeira infância para a adolescência, tentemos não criticar a Coordenação ou a Direção da escola ou os colegas esquisitos dos nossos filhos antes de descobrirmos quem eles realmente são naquele espaço que nós definitivamente não conhecemos, o que eles vêm fazendo, falando e até mesmo – porque não – comentando por aí nas redes sociais. Saibamos quem eles pretendem ser, se são líderes, maria-vai-com-as-outras ou até mesmo, se fazem e/ou sofrem bullying. Descubramos esse nosso “novo filho”. Isso não necessariamente é descobrir somente pontos negativos, mas ter a consciência plena de que ele pode ser uma pessoa diferente do que é em casa – isso é normal – e ter esta informação é um enorme ganho para nós pais, no sentido de conhecê-los melhor, entendê-los, ajudá-los e, principalmente, protegê-los. Viver em sociedade é isso. E educar é uma arte.

Autora: Nathália Alves é publicitária, pesquisadora de mercado há 16 anos e mãe de duas adolescentes. É autora do instagram @repertoriodemae onde registra diálogos divertidos das filhas assim como outros pensamentos de Mãe e de Mulher. (Contato: repertoriodemae@gmail.com)