Sobre querer ser mais do que só mãe

30 de jun de 2017

Anna andava cansada de cuidar dos filhos. Eles estavam em uma fase muito conturbada onde gritavam, choravam e estavam sempre contrariando todo mundo. Ela não sabia bem se aquilo tudo era só uma fase ou se seria assim dali por diante.

Além do mais, agora que os gêmeos Joaquim e Benício estavam mais crescidos, com 5 anos, ela estava doida para voltar ao trabalho. Se perguntava o que achariam dessa ideia, se iam criticá-la por querer ter uma vida além da de mãe. Ficava pensando se a maternidade era para ser esse peso todo que ela sentia.

Não sabendo com quem conversar, foi se fechando para o mundo e cada vez menos conversava com outros adultos, sua vida era de ser mãe e ponto final. Seu marido achava bom que ela tivesse largado tudo para cuidar da casa e das crianças e frequentemente dizia o quanto deveria ser bom passar o dia “à toa”. “Como assim à toa?”- ela pensava. Passava o dia em função de manter tudo organizado, de cuidar da alimentação de todos e ainda tinha que encontrar tempo para sentar no chão e brincar com os filhos como se “não houvesse amanhã!”. Porque claro que ela não podia se cansar e nem dizer que estava exausta de tantas brincadeiras infantis.

Bem lá no fundo, lá dentro mesmo, ela queria encontrar amigas que não via há bastante tempo, sair para falar besteira, dar risadas e até beber alguma coisa. Só para variar, só para ser a Anna de novo um pouco e não mais só a mãe. Mas toda vez que ela pensava nisso, já imaginava os olhares de reprovação das pessoas – principalmente da família – e desistia rápido da ideia.

A relação com o marido também já não era a mesma já que sendo “só” mãe, ela nem se lembrava do quanto era gostoso se arrumar para tirar suspiros dele. O cansaço que sentia no fim do dia era tanto que muitas vezes acabava dormindo abraçada em um dos filhos e nem voltava para a cama dela. Quando percebia que já tinha passado tempo demais sem sequer dar um beijo no marido, tentava retomar, mas se via nesse ciclo vicioso onde o cansaço sempre vencia.

Ela não estava feliz, mas não queria admitir. Como pode uma mãe com dois filhos lindos e saudáveis dizer que não é feliz? Do que ela está reclamando? Talvez essa cobrança viesse mais dela mesmo do que dos outros. Era assim que ela tinha aprendido que era ser mãe e era assim que deveria ser custe o que custasse.

Valeria a pena custar sua vida? Não que ela fosse tirá-la, mas sentia a vida escorrer pelos dedos. Os cabelos já com alguns fios brancos, mostrando que o tempo não parava e a escolha de como viveria cada dia, era exclusivamente dela.

Finalmente, em um dia de muita chuva, que não permitia que levasse os meninos para correr no parque, ela decidiu que faria diferente. Começou a buscar em sua agenda os contatos da época em que trabalhava, ligou desenho para as crianças e sentou no computador para atualizar o currículo. Em cada site que entrava buscando alguma vaga de emprego, sentia seu coração acelerar com a possibilidade.

Ela percebeu o quanto estava desatualizada, “nossa, o mercado de trabalho muda muito rápido” e viu que talvez não fosse conseguir a mesma colocação que tinha antigamente. “Tudo bem, eu aceito qualquer coisa!”. A busca incessante de Anna fez com que encontrasse algumas possíveis chances e ela enviou seu currículo. Não contou para ninguém sobre os novos desejos que seu coração almejava e quando o telefone tocou com um pedido de entrevista para emprego ela mal acreditou. Não rápido, ela esperou meses e meses até que uma entrevista se transformasse no convite para o trabalho, mas esse dia chegou.

Anna organizou tudo para que os meninos tivessem onde ficar e mesmo com olhares desaprovadores, ela estava radiante. Seu marido não concordou com sua atitude, mas ela decidiu que seguiria de qualquer forma. Não foi fácil toda adaptação inicial, a nova rotina da família e a convivência entre eles. Mas Anna conseguiu!

Voltar a trabalhar foi como traze-la de volta a vida. Ela esbanjava alegria e sua autoestima aumentada permitiu que voltasse a se ver não só como mãe, mas também como mulher. Começou a se preocupar mais com sua aparência e viu os olhos do marido brilharem de novo. Ele finalmente tinha entendido o quão importante era isso para Anna.

Agora ela se sente inteiramente realizada e percebe o quanto é uma mãe melhor depois que decidiu cuidar de si. Seu relacionamento melhorou muito e ela nem pensa mais em se separar, estão feliz assim.


Essa é a história de Anna, mas poderia ser da Júlia, Flávia ou Manuella. Talvez voltar para o trabalho não seja o que faz seu coração bater mais forte, talvez seu sonho seja outro, mas então te pergunto: o que você precisa fazer para sua vida ser mais? Pense nisso.

Grande beijo,