Polidactilia: diagnóstico

13 de jul de 2012

Hoje tenho uma coisa para contar. Dessas que a gente guarda querendo dizer logo – duma vez – mas sente que ainda não está na hora. Talvez eu ainda não estivesse preparada para escrever sobre isso.

Eu fiz cesárea, como vocês sabem e assim que ele nasceu o pediatra o levou para outra sala fazer aqueles exames de rotina. Meu marido foi junto e demoraram bem uns 20 minutos para trazerem ele de volta. Eu já tinha dado uma olhadinha pra ele, mas queria tocá-lo e principalmente amamentar.

O pediatra chamou uma enfermeira para me ajudar com a amamentação e ela trouxe o Vítor todo enroladinho para perto de mim. Assim que eu bati os olhos em uma de suas pequenas mãos vi que tinha algo diferente. “Opa, peraí, o que é isso?” pensei. Vítor nasceu com polidactilia, ou seja, com 6 dedinhos em uma das mãos! Sim, isso mesmo, meu pacotinho veio com um item de série extra!! Na hora pedi para que a enfermeira desembrulhasse ele inteiro, pois eu queria ver seu corpinho para verificar se todo o resto estava no lugar. A enfermeira o fez e me perguntou se eu não tinha visto no US o dedinho extra. “Não, eu não vi” foi o que respondi, mas na verdade eu queria ter dito “olha bem pro tamanho da mão dele, agora olha os dedinhos, como eu veria algo tão pequeno?”.

O dedinho fica junto ao dedão da mão direita e na hora não pude analisar muita coisa, porque logo ela o enrolou novamente e disse que quando eu fosse para o quarto poderia pedir para que o levassem pra mim. Ela foi embora com ele e eu fiquei com um turbilhão de sentimentos. Meu marido se aproximou e eu disse “ele tem 6 dedos!”, ele só dizia “Eu te amo, eu te amo!”. Aí eu percebi que ele já sabia, provavelmente o pediatra tinha mostrado pra ele na outra sala. O médico também veio falar comigo, ele segurou minha cabeça e disse para eu não me preocupar, porque ele era saudável e isso que importava.

Claro que era isso que importava, mas quando somos pegos de surpresa, ainda mais com um filho, tudo toma uma proporção muito maior. Meu marido teve que sair da sala, o pediatra também e eu fiquei ali na maca, terminando a cesárea e pensado mil coisas. Me questionei sobre eu não ter feito meu filho direito, porque isso poderia ter acontecido, já que não há casos na minha família, nem na do meu marido, me senti culpada, quis chorar.

À princípio eu achei que o dedão fosse atrofiado e junto dele tivesse o outro dedo. Aí fiquei imaginando todas as dificuldades que ele passaria por não ter o dedão “funcionando” – o que é uma mão sem o dedão? – se ele seria canhoto por conta disso, como seria quando ele fosse maior, na escola, com os amigos – criança é muito maldosa às vezes, né? – enfim, passei o tempo inteiro super nervosa e com os pensamentos a mil.

Eu tremia muito, mais por conta do nervosismo do que do efeito da anestesia, mas como a médica não sabia disso – e eu não quis falar um “Pelo amor de Deus, deixa eu ir pro quarto ver meu filho!” – ela achou que era melhor eu ficar mais tempo na sala de observação. Fiquei umas 2h, uma eternidade.

Cheguei no quarto já chorando, pedindo para ver o Vítor. Lá estava minha mãe e meu marido e eles tentaram me acalmar, dizendo que isso não era nada. Meu marido, que não tem nada de romântico, disse a coisa mais linda que ele poderia me dizer no momento “é tanto amor que ele veio até com um dedinho a mais!”. Achei tão lindo que fiquei até mais calma. Finalmente Vítor chegou, peguei ele no colo e fui direto olhar sua mãozinha. O dedão não era atrofiado! Ufa, que alívio! Apesar de ter o outro dedinho junto, o dedão tem todos os seus movimentos normais.

Depois que passou o susto, a culpa e a choradeira, – isso foi um tempo depois e não logo na maternidade –  percebi que realmente não é nada demais ele ter esse dedinho, aliás, antes um a mais do que um a menos, né? Levamos ele ao médico e ele disse que dá para retirar e é uma cirurgia tranquila, apesar de ter que dar anestesia geral. Ele aconselhou a esperarmos até pelo menos ele ter 9 meses.

Agora ele está com quase 9 meses, mas e a coragem de submetê-lo a uma cirurgia? Eu acredito que seja melhor retirar enquanto ele é novinho, principalmente antes dele começar a frequentar a escola, quero levá-lo também a outro médico, ouvir uma nova opinião a respeito, mas o problema agora é o grande medo da cirurgia.

Tudo isso que passei me fez pensar muuuuito nas mães que recebem um diagnóstico grave assim que seus filhos nascem. Se eu me culpei, chorei e demorei um certo tempo para me acostumar, imagino para uma mãe que passa por situações muito mais difíceis. Confesso que hoje admiro ainda mais estes pais (não só as mães, né?), que com certeza tem uma força incrível para aprender e aceitar a nova condição.

Bom, essa é a história da polidactilia do Vítor e todos os sentimentos que me envolveram nela. Hoje já nem lembro que ele tem esse dedo a mais e também não tento esconder das pessoas. Muitas vêem e percebo que ficam sem graça de perguntar e eu mesma falo “olha, ele tem um dedinho a mais!”.

Sei que vocês estão curiosas para verem fotos, mas nunca batemos e não sei se bateremos, quem sabe.

Quem quiser ler sobre a cirurgia: Polidactilia: preparação para a cirurgia

UFA! Me sinto uns 20 kg mais magra agora! 🙂

Beijos,