[Leitora] A história da Aninha

04 de mar de 2013

Quem escreve o texto de hoje é a mamãe Vanessa que conta sua linda história e de sua filha Aninha. Ela criou uma fanpage no facebook para ajudar a divulgar os problemas que a filha tem, quem puder, acesse: diário de uma mãe especial.

Positivo!!!

Sim eu estava grávida, uma grávida adolescente de 17 anos, mas muito feliz. A gravidez correu tudo bem os exames de ultra não revelaram nenhum tipo de alteração. Agosto 2000. O dia em que minha vida mudou…

 Era uma terça-feira, ainda de madrugada quando um desconforto abdominal me acordou, nada parecido com as terríveis contrações do parto, então me levantei e como uma gestante faz xixi toda hora pensei que ia ao banheiro e retornaria a minha cama para tentar achar uma posição confortável para mim e para o bebê, mas não! Quando abaixei vi um enorme sangramento, apavorada, fiquei ali imóvel, estática, medo, angústia, tão jovem… tão imatura.

Muito desesperada, fomos apressados até o hospital, chegando lá eu estava já com 7 dedos de dilatação, o neném ia nascer, ainda fizeram uma tentativa de segurá-lo dentro de mim por conta do pulmão tão frágil ainda sem formação completa. Estava com 32 semanas de gestação, fiquei sangrando e sofrendo para mantê-lo na minha barriga durante três longos dias, para o pulmãozinho amadurecer e poder respirar sem problemas.

Foi quando eu disse a médica que induzisse o parto, pois eu queria que meu bebê nascesse de parto normal, as enfermeiras tentavam me acalmar me prepararam para a sala e romperam a minha bolsa, um líquido verde saiu mostrando que já estava acontecendo sofrimento fetal, algum tempo a mais seria trágico, o bebê não resistiria e eu também correria risco de vida.

Ás 10:45 da manhã, de uma quinta-feira, o dia escolhido a dedo por Deus foi 20 do mês de Agosto do ano de 2000. Com uma coragem muito grande eu seguia as orientações da equipe, e me agarrei na mesa obstétrica e fiz uma força tremenda, uma dor forte, parecia que ia quebrar minha coluna ao meio, sentia meu ossos se abrindo, tentava manter a respiração, estava perdendo os sentidos e então a médica disse:

– Está vindo! Continue…

Mais uma força e eu ouvi o som dos céus… um choro forte que invadiu a sala:

– É uma menina!

Veio ao mundo de um parto prematuro pesando apenas 1600kg com 38 cm, a minha grande guerreira.

Um divisor de águas foi esse dia!

Morreu a menina adolescente e nasceu a mãe especial.

Eu era a mais feliz de todas as mulheres do mundo! Eu havia sentido na pele as dores do parto, a emoção, eu nunca me senti tão viva e tão dona de mim, foi como se eu tivesse encontrado a minha razão de viver, e eu jamais ficaria sozinha, o milagre da vida era meu!

Ao terceiro dia de vida Aninha teve uma parada cardíaca por aspiração pulmonar, e sofreu uma hipóxia, foram meses internada na uti lutando pela vida, minha guerreira tão pequenina sofreu muito e obviamente ficou muito sequelada, perdeu massa encefálica e desenvolveu a síndrome epilética.

No primeiro momento, senti muita revolta, muita dúvida, buscando um culpado e com muito medo de amá-la já que ia perdê-la. Até que caiu a ficha. Pensei em sentar no meio fio e chorar até resolver. É isso que vou fazer, pensava. Mas como não acreditava nesta hipótese, e minha história de vida não me permitia lamentações, resolvi ir à luta. Busquei e procurei fazer tudo que eu pudesse com um objetivo único: permitir que minha filha fosse feliz. Em nenhum momento busquei a cura ou a “normalidade”. Assim fui amando-a cada vez mais.

Tracei uma única expectativa (a única que eu pensava ser viável): minha filha vai ser feliz apesar de qualquer limitação! E o que depender de mim, será feito!
Aninha foi diagnosticada com Paralisia Cerebral espástica e Síndrome de West com possível progressão para Síndrome de Lenox Gaustaut. Ela faz um acompanhamento multidisciplinar, passamos os dias mais no hospital do que em casa, ela sofre crises de convulsões frequentes, e faz uso de muitos medicamentos e aparelhos.
No dia 20 de agosto do passado ano, ela completou 12 anos. Internações? Foram duas para cirurgia ortopédicas e umas 26 por pneumonias, Faringites, 6 broncoaspirações, 3 por cirurgias abdominais, e acho que algumas eu devo ter me esquecido, e ainda vem muita coisa por aí, pra quem não ia viver nem até um ano é um lucro e tanto. Para ela e para todos que de alguma forma fazem parte da sua vidinha. Aliás, vidona, porque essa menina é uma guerreira. Receber minha filha com todas as suas limitações me trouxe muito aprendizado e muito crescimento. Aprendi a lutar pelo que ela precisava, sangue, alimentação parenteral, massagem de todos os tipos, a valorizar mais a vida e perceber o que realmente importa.

Sofri muito quando o pai de Ana resolveu nos virar as costas, talvez um dia ele se arrenpenda, mas ao que vejo não vai ser agora, quem perdeu foi ele e quem vai pagar por esse ato desumano também vai ser ele. Ana encontrou um pai a sua altura tão especial quanto ela. Passei a não mais gastar energia com coisas que antes, para mim, eram enormes, e passaram a ser minúsculas ou até sem nenhum valor.
A tolerância, a paciência, um outro olhar para tudo, contribuiu, inclusive, para meu crescimento pessoal.

Conheci o amor incondicional, valorizo pequenos progressos, percebo apenas com um olhar, o sentimento do próximo. Aprendi a pedir ajuda (e como isso é difícil!), a ser mais humilde e até a me doar mais para quem precisa. Precisei descobrir como fazer contato com minha filha e descobri que a música era um canal maravilhoso. Mas com certeza não sou só isso. Às vezes me irrito, me canso, sinto tristeza, me sinto deficiente sem poder ir para onde quero, sinto sono e até raiva. Já me culpei por tudo isso, já sofri, mas hoje aceito minha condição humana e percebo meus ganhos.

Dias desses, ouvi uma frase de uma mãe que perdeu o filho caçula e me identifiquei. “Se isso aconteceu, com toda certeza, foi para que eu melhorasse enquanto pessoa, e podem acreditar, eu vou melhorar!” Bateu fundo porque foi exatamente isso que aconteceu comigo: melhorei em todos os sentidos.

Não é fácil ter um filho com necessidades especiais. Não desejaria isso a ninguém. As dificuldades são imensas, a começar pelo consultório médico onde perguntas curiosas são feitas, pessoas se afastam com medo de “pegar”. Os tratamentos são caros, a alimentação, o transporte inacessível, o preconceito, e por aí vai. Mas agradeço diariamente a esta criaturinha tão especial por fazer parte da minha vida. É um amor inexplicável.

Muita gente me pergunta como eu aguento, como cheguei aonde cheguei convivendo com tanta dificuldade, muita gente sente pena…E digo aqui: é horrível o olhar de pena. Sinceramente, não sei de onde vem tanta força e resignação, tanta disposição para ir à luta. Ao contrário do que muita gente possa pensar, a Ana, minha filha especial e mestra de tantos ensinamentos, não é “um problema”. Pelo contrário, ela foi a solução para muitos problemas. Existem apenas limitações, por vezes enormes, mas todas resolvíveis.

Enfim pude constatar que Aninha não veio a esse mundo para ser curada e sim para curar nossas vidas. Ela é um anjo que habitou o meu ventre e hoje habita minha casa.

Feliz por compartilhar com vocês nossa história, parece ficção científica misturada com terror, tragédia, comédia, drama. Mas é a nossa história sendo escrita da melhor forma possível a vida não vai passar por nós, nós vamos simplismente viver bem enquanto estivermos juntas isso foi decidido há 12 anos atrás justamente quando nos disseram que não haveria amanhã. É só andar devagar, sentir os passos, um dia de cada vez.

Sempre há !

Beijos,