Lúpus na gestação – leitora

03 de abr de 2013

A história de hoje é contada por Thais Melo de Paula.

Lúpus na gestação

Tenho 32 anos, mas na época tinha 30, sou médica veterinária e trabalho em uma universidade ministrando aulas e participando dos atendimentos do hospital veterinário.

Descobri que estava grávida com apenas 4 semanas de gestação durante uma corrida de rua. Antes de engravidar fazia vários esportes, entre eles corrida. Participava de várias corridas de rua, treinava bastante durante a semana e me sentia muito bem vivendo assim. Durante essa última corrida me senti mais cansada que o normal e, de repente, vieram os enjôos e tive que interromper a prova. Meu marido desconfiou que eu pudesse estar grávida e realizei, no mesmo dia, um teste rápido de gravidez (daqueles de farmácia) e deu positivo.

Eu, meu marido e nossas famílias ficamos muito felizes com a notícia, pois já queríamos ter filhos. Passei muito bem nos primeiro 3 meses de gravidez, não tive enjôos, apenas muito sono. Continuei minhas atividades físicas de maneira moderada, trabalhando normalmente, e na 12ª semana de gestação descobri o sexo do bebê, era um menino. Fiquei extremamente feliz, era o que sempre quis e o que estava intuindo.

A partir da 13ª semana de gestação, comecei a sentir dores nas articulações das mãos e dos pés bem intensas pela manhã que melhoravam durante o dia. No início pensei ser resultante das atividades físicas e fiz repouso esperando melhora. Com o passar dos dias as dores foram piorando e se espalhando para as outras articulações do corpo, como estava grávida tomava apenas paracetamol, mas as dores eram tão fortes que não surtia efeito.

Procurei um reumatologista, a pedido do meu ginecologista, que solicitou vários exames e diagnosticou lupus. Como as medicações para a doença não podem ser feitas durante a gravidez, prescreveu corticóide para aliviar as dores. Com o bebê estava tudo bem, se desenvolvendo normalmente, mas as minhas dores eram insuportáveis e, ao mesmo tempo, não queria e nem aceitava ter que tomar corticóide durante a gravidez. Optei por suportar a dor sem a medicação, procurei várias terapias alternativas, modifiquei minha alimentação e consegui levar dessa maneira por um período de 40 dias.

As dores foram aumentando de intensidade até chegar a ponto de não conseguir me mexer pela manhã ao acordar, tamanha a dor… Nesse dia decidi tomar a medicação e pensei que toda aquela dor e todo aquele estresse estariam fazendo mais mal ao bebê do que a própria medicação poderia fazer. Após o início do tratamento tive melhora e as dores diminuíram muito, mas nunca desapareceram até o dia do parto.

O Vitor, meu filho, nasceu com 36 semanas de gestação, pesando 2,3kg e medindo 44cm de parto normal. Provavelmente a medicação antecipou meu parto e afetou seu ganho de peso, mas ele nasceu saudável e com muita vontade de viver, como todos os bebês.

Passei muito bem nos primeiros 40 dias pós-parto, consegui amamentar, minhas dores desapareceram e tinha começado a retirar a medicação. Após esse período, meu leite começou a diminuir e o Vitor mostrava sinais de ansiedade e fome, procurei ajuda em um banco de leite que me auxiliou muito e me orientou a manter a amamentação mais a suplementação necessária. Comecei a me sentir cansada, sem disposição e meu rosto começou a inchar, depois meus pés… O lupus havia atingido meus rins que pararam de funcionar. O Vitor tinha apenas 2 meses quando fui internada pela primeira vez, tive que interromper a amamentação e minha mãe cuidou dele durante meu tratamento.

Fiquei internada durante 15 dias, fiz biópsia de um dos rins, ganhei 23 quilos em 10 dias, fiquei muito inchada e não produzia urina. Tive uma discreta melhora e pude ir para casa continuar o tratamento com vários comprimidos e calculando a quantidade de urina produzida com a quantidade de água que tomava, passei muita sede. Me sentia mal o tempo todo e não conseguia cuidar do Vitor.

Todo o sonho de ser mãe, cuidar do meu filho e amamentá-lo não cabia mais naquela situação, sentia muita falta do Vitor, me sentia culpada por não estar com ele nesses primeiros dias de vida, mas tinha consciência da importância de cuidar de mim e focar na minha saúde.

Tive que ser internada pela segunda vez após 7 dias em casa, fiquei 18 dias no hospital e comecei a fazer hemodiálise. Também fiz um tratamento com um quimioterápico, perdi quase todo meu cabelo, voltei a tomar corticóide numa dose muito alta que me fez ganhar vários quilos.

Comecei a melhorar, realmente, após esse tratamento. De repente meus rins voltaram ao normal, fui me sentindo cada vez melhor e mais disposta, voltei a trabalhar (minha licença maternidade já havia terminado) e já estava em minha casa, com o Vitor, cuidado dele de verdade, como mãe… Ele já estava com mais de 3 meses…

Minha impressão é que minha mãe era mais mãe do Vitor do que eu. Precisei conhecer meu filho, conhecer sua rotina, aprender o jeito certo de fazê-lo dormir, dar os banhos, enfim, aprender toda a rotina do meu próprio filho.

De repente tive que lidar com a quimioterapia, a volta ao trabalho, a rotina do Vitor, retomar o relacionamento com meu marido, lidar com os quilos extras e com a autoestima. Precisei, e ainda necessito, de terapia psicológica que me ajudou muito. Hoje o Vitor é um garotinho de 1 ano e 3 meses, cheio de saúde, muito espoleta e feliz.

Penso que talvez fosse preciso passar por tudo isso para me tornar uma pessoa melhor, uma mãe mais forte e preparada para criar o Vitor. Todos aqueles clichês sobre dar valor às pequenas coisas, viver e curtir cada momento do dia, saber que a saúde vem em primeiro lugar começaram a fazer sentido, pois realmente entendi o sentido de cada um deles.

Que alegria poder ter saúde e disposição para acordar durante a noite quando o Vitor chora, brincar e andar atrás dele várias horas seguidas, levá-lo ao médico quando está doente e ainda poder trabalhar, cuidar da minha casa, passear com minha família, curtir meus amigos e cachorros, enfim, aproveitar as coisas mais simples da vida que antes não enxergava o real valor.

lúpus na gestação

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Beijos,