Relato de parto domiciliar – parte II

07 de abr de 2014

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Relato de parto domiciliar – parte I

A Luanda, minha médica, disse que ficaria me observando um pouco para ver como estavam as contrações. Depois disse que queria fazer um exame de toque para ver como iam as coisas. Eu estava sentada na bola de pilates e debruçada em cima de um travesseiro que estava na mesa.

Ela disse que poderia ser na banqueta de parto e me senti aliviada, porque não queria deitar de jeito nenhum. Aliás, as piores dores que senti foram nas contrações que eu estava deitada. Doía demais e entendi perfeitamente porque as mulheres em hospitais pedem por anestesia. Ter contrações deitada foi a pior experiência que tive. Eu sentei na banqueta, esperamos passar uma contração e pela primeira vez, durante todo meu pré-natal, ela fez um exame de toque em mim:

– Você está indo super bem! Parabéns!

– Com quantos centímetros eu estou?

– Ah, não se prenda a isso, não importa, o que importa é que você está indo super bem!

Como eu já estava mais no meu mundo do que em qualquer outro lugar, não insisti para saber e só depois do nascimento foi que eu perguntei de quantos centímetros eu estava nesta hora. Três. Três centímetros de dilatação. Agradeci imensamente por ela não ter me contado isso naquele momento. Com certeza eu teria desanimado demais.

Logo depois disso senti uma água escorrendo e falei que minha bolsa tinha rompido. Ela veio olhar e realmente isso tinha acontecido, mas não foi de uma vez, a água foi saindo aos poucos. O líquido era claro e cristalino, não tinha mecônio nem nada que preocupasse. A Luanda  veio me avisar que como estava tudo bem, ela iria para casa tomar um banho e jantar e que mais tarde voltaria.

Eu disse que tudo bem e pensei que então as coisas demorariam a acontecer. Afinal, ela não iria embora se a Mariah estivesse para nascer. Não foquei meus pensamentos nisso e pedi para ir para o chuveiro, pois queria o alívio que a água tinha me trazido durante a tarde. Isso era por volta de 19h.

parto domiciliar

A Raquel – doula –  me acompanhou até lá e fiquei embaixo da água, em cima da bola de pilates. Tinha hora que era meu marido quem estava comigo, em outra era ela. Eles queriam que eu comesse alguma coisa e pedi manga. Meu marido foi cortar, mas a hora que senti o cheiro disse que não queria de jeito nenhum, para que eles levassem de lá.

As dores estavam vindo mais fortes e junto com elas sentia uma pressão no intestino. Era difícil ficar sentada na bola quando vinham as contrações, parecia que eu precisava levantar. A cada contração mais forte eu pensava no cansaço que estava sentindo e se as dores só aumentariam.

“Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus, pois ela te sustentará. Não temas, segue adiante e não olhe para traz, segura na mão de Deus e vai.” (Segura na mão de Deus – Padre Zezinho)

Pedi para sair do chuveiro, pois o incomodo com a bola estava demais e nessa hora minha médica apareceu para ouvir o coração da Mariah. Perguntei se ela já tinha ido e voltado ou se não tinha ido ainda. Ela disse que ainda não, que estava organizando as coisas que tinha trazido no caso de alguma emergência. Terminou de ouvir o coração da Mariah, disse que agora estava indo mesmo e que logo voltaria. Eram 19:30.

Quando ela saiu do banheiro perguntei pra minha doula:

– Raquel, seja sincera, você acha que ela nasce hoje?

– Hoje não Mari, acho que essa madrugada ou amanhã cedo. Mas agora já são quase 20h, logo será 22h e tudo vai passar rápido!

Eu me abaixei na pia, porque mais uma contração estava vindo. Pensei aonde eu tinha me metido, porque fui inventar de ter um parto natural. Eu estava cansada, com sono e com dor. Pensei nas palavras da Raquel e tentava imaginar se eu aguentaria ficar com aquelas dores até no dia seguinte de manhã. Enquanto eu me apoiava na pia, ela me fazia massagens nas costas e isso foi essencial para me ajudar a relaxar.

Nessa hora era difícil pensar em qualquer coisa que eu tinha aprendido durante a gestação, eu agia por instinto, respirando fundo e tentando não deixar a dor “presa” no meu corpo. Relaxava o máximo que eu conseguia. Lembrei que li bastante sobre a “hora da covardia”, que era quando as mulheres queriam desistir e tomar anestesia ou fazer cesárea.

Pensei que eu só poderia estar nessa hora e que ela indicava o fim do parto. Mesmo a Raquel e a Luanda achando que ela não nasceria logo, eu achava que isso ia acontecer em breve, que eu estava chegando ao fim daquela jornada. Não comentei isso com elas, porque não sabia se podia confiar no meu sexto sentido. Estava tudo confuso, eu mais dentro de mim do que fora. Hoje percebo que, mais do que nunca, meu corpo e mente me diziam o que estava acontecendo e que eu não deveria ter tido o receio de dizer.

Coloquei um pijama – com shorts, calcinha e absorvente, pois a água da bolsa rompida pingava – e fui para o quarto. Mais uma contração. Me agachei em cima da cama e falei que estava cansada de sentir dor. Essa dor muito forte tinha começado há pouco tempo, no chuveiro e vinha muito seguida uma da outra. Não lembro se a Raquel falou alguma coisa, mas lembro de suas mãos me fazendo massagem e me trazendo a calma que eu precisava.

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Em momento algum eu pensei em ir para o hospital tomar anestesia. Na verdade parecia que eu não tinha essa opção, pois não lembrei dela momento algum. Não porque eu queria ser durona e aguentar tudo, mas simplesmente porque não me ocorreu isso. Apesar de serem muito fortes e eu estar exausta, eu sabia que estava no fim. Tinha que estar.

A intensidade da dor me fazia ter ideia de como as coisas estavam evoluindo e mesmo não sendo confortável sentir dor, foram elas que me guiaram até o momento do nascimento. Acredito que tudo que aprendi durante a gestação, principalmente relaxamento e respiração, contribuíram para que as dores não se tornassem insuportáveis.

Do quarto fomos para a sala e fiquei apoiada na cadeira da mesa, em pé. Meu marido e a Raquel tentaram me fazer comer algo. Dei uma mordida numa bolacha e nisso veio uma contração que mal consegui engolir o pedaço. Não quis mais nada. Pedi para sentar na bola de novo e meu marido sentou em um baú bem atrás de mim para que eu me apoiasse nele. A Raquel ficava do meu lado, me fazendo sempre massagem e me dando força.

Eu pensei que não conseguiria me soltar com ela, pois sou muito fechada, mas no momento do trabalho de parto, ter uma pessoa me apoiando física e emocionalmente foi essencial. Cada massagem e toque de carinho que ela fazia, me dava força para continuar, além do alívio imediato da dor. Eu não teria conseguido sem ela.

Lembro que em algum momento, alguém me disse o que eu já tinha pedido muito antes. Se caso eu desanimasse, que eles me lembrassem dos motivos que tinham me levado até ali. Aí me lembrei do meu sonho com a Mariah dias antes (clique aqui para ler), dela me puxando pelas mãos e dizendo “vem, mamãe, vem”, fiquei imaginando nossa chegada nos girassóis e isso me deu muita força.

Pensei que o sonho fazia todo sentido agora. No começo da floresta ela é quem tinha medo e depois, eu que estava exausta. Foi então que ela me puxou, não me deixou desistir para que chegássemos nos girassóis.

“Pra você guardei o amor que nunca soube dar, o amor que tive e vi sem me deixar, sentir sem conseguir provar… Sem entregar e repartir…” (Pra você guardei o amor – Nando Reis)

Sentada na bola, quando vinha uma contração, eu quase deitava sobre ela, apoiada no meu marido que perguntou se eu queria deitar no sofá. Deitar não, de jeito nenhum. Acho que foram umas duas contrações em cima da bola e me deu vontade de fazer força:

– Eu estou com vontade de fazer força!

– Faça o que seu corpo está pedindo, Mari! – disse a Raquel.

Eu fiz, uma vontade fraca, pouca força e senti sair muito líquido de dentro de mim:

– Tem alguma coisa saindo!

– Não se preocupe, é secreção e é normal!

Nessa hora as dores das contrações passaram e eu senti um alívio enorme! Pedi para sentar na banqueta de parto e a Raquel foi buscar. Ouvi seus passos correndo pela casa e notei que tinha algo diferente no ar. Ela voltou com a banqueta e eu comecei a tirar meu shorts e a calcinha, porque vai que a Mariah nascesse. Sentei na banqueta e levantei na mesma hora! Senti uma dor forte bem embaixo da barriga que passou assim que levantei.

Me veio de novo a vontade de fazer força. Dessa vez muito mais forte que a primeira e me agarrei com tudo nos braços da Raquel. Eu devia estar quase arrancando seus braços com a força, porque meu marido só repetia “segura em mim, amor, segura em mim!”, mas na hora não tinha a menor condição de soltá-la. Fiz a força que meu corpo pediu e falei:

– Ela desceu, está ardendo!

– O que está ardendo? – perguntou a Raquel.

– O canal vaginal, ela entrou no canal vaginal.

– Fique tranquila, já avisei a Luanda, ela está vindo pra cá, ela mora aqui pertinho!

– Se ela nascer, você sabe pegar?

– Sei!

Como a Raquel, além de doula, é enfermeira, fiquei tranquila. Então falei baixinho:

– Ela está nascendo!

Eram 20h.

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Relato de parto domiciliar – parte III

Veja o vídeo com as fotos desse grande dia: Vídeo de parto domiciliar