Relato de parto domiciliar – parte III

14 de abr de 2014

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Eu tinha dilatado 7cm em pouco mais de uma hora e talvez por isso que senti dores intensas no final do trabalho de parto. Essa dilatação tão rápida pegou todo mundo de surpresa, pois geralmente a dilatação acontece 1cm por hora. Por isso que a Luanda tinha ido para a casa dela e a Raquel pensava que a Mariah não nasceria naquele dia. Mais uma prova de que cada mulher é de um jeito e cada parto acontece diferente do outro.

A vontade de fazer força tinha passado, então meu marido pediu para irmos para o quarto. Sem a dor das contrações, estava mais fácil me movimentar. Segurei nos braços da Raquel, encostei minha cabeça na dela, uma de frente para a outra e fomos indo em direção ao quarto. Bem devagar. Meu marido foi na frente e tirou o tapete e o que mais fosse atrapalhar. Chegando lá eu me ajoelhei no chão:

– Vamos para a cama, Mari! – disse a Raquel.

– Não, eu quero ficar aqui!

– Vou pegar um travesseiro então!

Nisso ela já estava com meu travesseiro nas mãos, colocou embaixo dos meus joelhos e forrou tudo em volta de mim com muitas toalhas. Foi tudo bem rápido, eu nem notei. Ela apagou a luz e deixou uma bem fraquinha. Eu não lembro, mas eles me falaram que assim que ela apagou a luz, eu disse que não queria, que era para deixar as luzes acesas. Meu marido sentou bem na minha frente e agarrei no pescoço dele. Não vi a Raquel, mas depois ela me contou que estava bem atrás de mim, pronta para pegar a Mariah, caso ela nascesse.

“Meu amor, essa é a última oração, pra salvar seu coração. Coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa, cabe o meu amor… Cabem 3 vidas inteiras, cabe uma penteadeira…. Cabe nós dois… Cabe até o meu amor…” (Oração – A banda mais bonita da cidade)

parto domiciliar

Veio mais uma vontade de fazer força. Junto com ela veio também a vontade de gritar. Não um grito histérico e nem de dor, mas sim um grito de força, como se não fosse possível fazer toda a força necessária caso eu não gritasse. Um grito como se fosse um urro de um urso.  Agarrada no meu marido, fiz toda a força que precisava e senti a Mariah descer mais um pouquinho. Perguntei para a Raquel se ela já estava vendo alguma coisa:

– Ainda não, ela não coroou ainda! Vem ver Rica!

Meu marido levantou para olhar e logo voltou pro seu lugar, na minha frente. A Raquel colocou a mão nos ombros dele e falou que estava tudo bem, que tudo estava dando certo. Ele começou a chorar e isso me deu uma força enorme! Sentir que não era só eu que vivia aquele momento tão emocionante, que meu marido estava ali não só de corpo, mas de alma e coração, fez toda a diferença para mim. Mesmo exausta, senti minhas forças renovadas:

– A Luanda está chegando!  – ele disse.

Ela assumiu o lugar da Raquel, que pegou a máquina e começou a fotografar tudo. Eu não tinha tido essa ideia, mas amei ver que ela bateu foto dos acontecimentos e que tenho algum registro desse momento tão indescritível.

Não sei de quanto em quanto tempo vinha a vontade de fazer força, mas eram próximas. Logo veio mais uma e assim que fiz a força senti arder, o famoso “círculo de fogo” que chamam quando a criança coroa. Travei. Me deu medo da dor, apesar de não ser forte e parei a força no meio. Senti a Mariah voltar para dentro.

Mais uma vontade veio, bem forte e decidi que não pararia enquanto não sentisse a cabeça dela sair. Fiz toda a força do mundo, senti o “círculo de fogo” e ploft, saiu a cabeça. O “círculo de fogo” é uma ardência pequena e é passageira, assim que a cabeça passou, acabou qualquer desconforto. Senti um alívio enorme, como se ela já tivesse nascido:

– Saiu a cabeça, né?

– Sim, ela está ótima! – disse a Luanda.

Tão bom saber que estava tudo bem! Desmontei nos braços do meu marido e consegui descansar um pouquinho. Mas logo veio a vontade novamente e nesse momento ele me falou:

– Olha a música que está tocando, amor!

“Tem anjos voando neste lugar, no meio do povo, em cima do altar, subindo e descendo em todas as direções. Não sei se a igreja subiu ou se o céu desceu, só sei que está cheio de anjos de Deus, porque o próprio Deus está aqui!” (Anjos de Deus – Padre Marcelo Rossi)

Era exatamente assim que eu sentia minha casa. Cheia de anjos voando por todos os lados e Deus ali, junto comigo, me ajudando a trazer minha filha ao mundo da forma mais sublime possível! Junto com a força eu pensei “vem, Mariah, vem, está na hora de nascer filha!”. Coloquei toda a força que consegui e devagar ela foi nascendo. Eu ainda a sentia saindo de mim quando escutei seu chorinho. Que alívio, que sensação mágica! As 20:25 nasceu a Mariah, com 2.840kg e 48cm.

parto domiciliar

A Luanda a pegou e eu sentei no chão. Ela a colocou no travesseiro e em seguida a deu no meu colo. Nessa hora eu entrei em estado de choque. Chorava e ria ao mesmo tempo e tremia, tremia muito. Não consigo descrever o que senti naquele momento, não dá para explicar o que significa receber sua filha nos braços depois de um parto natural, mas acredito que as fotos desta hora (as minhas preferidas!) mostram no meu semblante toda a emoção que sentia.

parto domiciliar

Olhava para ela como se não pudesse ser verdade e perguntei:

– Ela nasceu mesmo ou eu estou sonhando?

Todos riram:

– Mari, parabéns, você foi maravilhosa! – disse a Raquel me dando um beijo.

– Seu parto foi lindo Mari, a trilha sonora foi perfeita! – falou a Luanda enquanto me examinava.

A sensação que dava é que poderia ser mesmo um sonho tudo aquilo que eu tinha acabado de viver. Toda a calma que senti durante o trabalho de parto tinha acabado e eu estava muito, muito nervosa. Eu olhava ao redor, olhava para a Mariah e mal acreditava!

Meu marido veio sentar ao meu lado e falou:

– Você conseguiu amor, você é louca, é louca!

parto domiciliar

Ficamos ali abraçados, rindo e olhando para a menininha que tinha acabado de nascer e estava bem aconchegada nos meus braços. A Luanda me pediu para ir para a cama, explicou que perdemos calor no trabalho de parto e eu precisava me aquecer. Mas quem disse que eu consegui me mexer?

– Não dá Luanda, não consigo sair daqui, não consigo me mexer!

– Tudo bem, mas já já você precisa ir para a cama! Olha o cordão umbilical, sente ele, ela está ligadona em você ainda!

Ela colocou minha mão no cordão e pude senti-lo  pulsar com toda força. Era muita emoção tudo que eu estava vivendo e por isso a tremedeira e todo nervosismo que sentia:

– Ela está  bem? Está respirando direitinho? (acho que fiz essa pergunta umas 5 vezes em momentos diferentes!)

– Sim Mari, ela está ótima! – disse a Luanda, que fazia os primeiros exames nela.

“Bem-vindo meu novo ser, cercado de proteção, de tanto amor, tanta paz, dentro do meu coração. É como se eu tivesse esperado toda vida pra te embalar.” (Reconhecimento – Isadora Canto).

Fazia uns 10 minutos que ela tinha nascido e já estava procurando meu seio, que eu dei com toda vontade. Ela o pegou certinho na hora e ficou ali mamando, um bom tempo.

Nisso senti um pouco de cólica, dessas fraquinhas que temos quando estamos menstruadas. Avisei a Luanda que disse que era a placenta que estava nascendo. Não precisei fazer força, a senti escorregar e sair de dentro de mim. A Luanda a colocou sobre uma toalha para eu ver e a Raquel aproveitou para fotografar. Esperamos o cordão parar de pulsar e meu marido o cortou.

placenta

Acho que fazia uns 40 minutos desde seu nascimento e eu ainda estava no chão do quarto. A Luanda então disse que não dava mais, que eu precisava ir para a cama me aquecer. Pediu para segurar a Mariah para que meu marido me levantasse, já que eu não conseguia me mexer direito ainda. A tremedeira tinha passado e eu me sentia mais calma.

Fui para a cama e a pequena voltou para o meu colo, pro meu peito. Ficamos mais de 1h ali e só então que elas a levaram para o outro quarto para medir, pesar e colocar sua primeira roupinha. Enquanto isso eu me ajeitei na cama. Logo em seguida elas voltaram com a Mariah, que mais uma vez veio para o meu colo.

Liguei pelo Skype para contar para meus pais, que não faziam ideia do que estava acontecendo. Acredito que eles ficaram no mesmo estado de choque que eu quando viram a menininha pela tela do computador. Eu gravei tudo, foi emocionante! Se você quiser assistir:

Contando sobre o nascimento para os avós

Ficamos conversando na cama, dando risada, lembrando de como tudo tinha acontecido tão rápido e de forma tão linda! Eu agora estava de volta a minha consciência e não me sentia mais dopada, como estive durante todo o trabalho de parto. A Luanda me examinou e tive uma discreta laceração no períneo, mas não precisei de pontos ou qualquer coisa assim. Sangrei pouco.

Já haviam se passado mais de 2h do nascimento da Mariah e ambas continuavam em casa, cuidando da gente. Isso fez toda a diferença e pude sentir o que é mesmo um atendimento humanizado. A preocupação delas comigo, com a Mariah e também com meu marido, o tempo todo.

parto domiciliar

Eu comi um pouco e então elas foram embora. Era umas 23:30. A Mariah dormia serena ao lado da minha cama, logo meu marido pegou no sono, mas eu não consegui pregar os olhos.

Depois de tanta emoção e um dia tão intenso e incrível, seria impossível mesmo dormir! Passei a noite relembrando tudo o que tinha acontecido, mal acreditando que finalmente tinha conseguido parir minha filha. E não foi só ela que eu pari, pari também meus medos, minhas inseguranças e tudo o que me paralisava e estava dentro de mim. Pari a mulher forte que eu nem sabia que era. Pari uma nova mãe, uma nova mulher. E finalmente reconheci a pessoa que eu já era e não sabia, alguém determinada e que agora, mais do que nunca, sabe que pode conseguir tudo o que quiser.

Veja o vídeo com as fotos desse grande dia: Vídeo de parto domiciliar

Beijos,