Relato de parto domiciliar – parte I

31 de mar de 2014

Eram umas 19h, do dia 24 de março, quando comecei a sentir, pela segunda vez no dia, contrações doloridas. Eu não falei para ninguém, porque pensei que talvez fosse só um treinamento. Foi a madrugada toda acordando com algumas dores, mas nada demais.

No dia seguinte de manhã, acordei e perguntei ao meu marido:

– Você sabe que dia é hoje?

– Sei, 25!

– Não, hoje é o dia que você se tornará pai pela segunda vez!

Ele riu e não acreditou muito, perguntou o que eu estava sentindo. Eu falei que um pouco de dor, mas que nada demais, estava tranquilo e ele poderia ir trabalhar sem preocupação.

O Vítor foi passar a manhã na casa dos avós e eu fiquei em casa, tendo contrações um pouco mais fortes, mas não cheguei a marcar o tempo entre elas, as dores eram sempre na frente e eu sempre tinha lido que as dores mesmo, do parto, vinham das costas para frente, por isso eu ficava com a sensação que poderia não ser nada. Avisei a minha doula  Raquel Loureiro e a médica que eu achava que ela nasceria naquele dia, mas que por enquanto estavam bem tranquilas, que eu nem estava marcando o tempo.

Minha médica me lembrou que poderia durar dias daquele jeito, mas que com certeza era o começo do trabalho de parto. Eu não tinha muita certeza. Na verdade estava sempre achando que poderia não ser, que meu corpo estava só se preparando para algo futuro.

Avisei também uma amiga, que tem uma história muito parecida com a minha (cesárea, hipnoterapia e parto domiciliar) e falei que talvez estivesse entrando em trabalho de parto. Ela disse que a tarde viria em casa me ver e aproveitaríamos para fazer um pouco de hipnose, que eu aprendi tanto durante toda a gestação para auxiliar no grande dia!

Passei a manhã toda com essas dores, não sei ao certo de quanto em quanto tempo vinham, mas notei que quando a dor aparecia, eu precisava procurar alguma posição para ficar confortável. Fui trabalhando a questão de respiração e relaxamento e comecei a organizar as coisas por aqui.

Montei o que faltava do quarto dela, coloquei roupas para lavar, guardei as que já estavam limpas. Organizei a casa e fiz tudo que eu achava que estava faltando. Quando as contrações vinham, geralmente eu ficava de cócoras, era a posição que mais aliviada as dores. Pensando agora, eu provavelmente estava na fase latente do parto, mas sempre com a sensação de que elas passariam a qualquer momento e que ainda não estava na hora.

Meu marido foi almoçar na minha sogra para poder buscar o Vítor e levá-lo para a escola. Eu almocei, arrumei toda a louça, a comida e as últimas coisas da casa. Meu marido veio me ver, eu falei que continuava tudo numa boa, que qualquer coisa eu ligava pra ele. Ele foi trabalhar e eu dormi por mais ou menos 1h, pois achei melhor poupar energia para o parto. Minha amiga chegou. Eram 13:30.

Passamos o dia conversando e as contrações começaram a aumentar. Ela pediu se poderia marcar o tempo entre elas. Eu disse que tudo bem, mesmo achando que ainda não era hora. Dançamos a playlist do parto que não parou mais de tocar até o nascimento, conversamos com a Mariah, trabalhamos hipnose e relaxamento. Eu sempre parava na hora das contrações e procurava uma posição que fosse mais confortável. Elas estavam mais fortes, mas eu ainda tinha dúvidas.

Em um certo momento, quando estávamos na cozinha, entre uma contração e outra me veio um medo. Medo do que estava por vir. Falei para a minha amiga que sentia medo e comecei a chorar. Ela me abraçou e toda aquela insegurança foi embora. Como foi bom poder me abrir e me permitir chorar e admitir meu medo. Isso fez com que ele fosse embora.

A Lívia, minha amiga, propôs que subíssemos as escadas do meu prédio, já que eu não queria ir pra rua. Então lá fomos nós. Eu subia devagar e parava em cada contração. Hoje, olhando as fotos que ela bateu, pude perceber o quanto eu já estava em trabalho de parto, mas mesmo assim, chegando em casa, falei pra ela:

– Li, acho que não vão mais parar, né?

– Não Má, agora só quando ela nascer!

parto domiciliar

Ela tentou me fazer comer alguma coisa, mas o máximo que eu consegui foi comer 2 quadradinhos de chocolate. Não tinha fome nenhuma.

Fui para o chuveiro e cada vez mais comecei a entrar pra dentro de mim, mergulhar em tudo que eu estava vivendo e talvez por isso, tinha a sensação de que talvez não estivesse mesmo vivendo tudo aquilo, parecia algo surreal.

De fundo escutava sempre as músicas que eu escolhi para o parto e engraçado que eu sempre escutava alguma no momento em que eu mais precisava.

“… a voz de um anjo sussurrou no meu ouvido, eu não duvido já escuto os teus sinais… tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais…” (Anunciação – Alceu Valença)

As contrações eram mais fortes, mas a dor não era insuportável e quando relaxava e deixava que elas entrassem e saíssem, tudo fluía super bem. O chuveiro me aliviou demais e foi uma experiência deliciosa sentir a água cair e deixar a dor ir embora. Eu já não tinha muita noção de tempo e espaço e as horas passavam sem eu perceber.

parto domiciliar

(depois perguntei para as pessoas sobre os horários, para vocês terem noção de como foi evoluindo)

Lá pelas 16:30 a Lívia sugeriu que eu avisasse a Raquel e a médica, pois as contrações estavam vindo de 4 em 4 minutos e durando aproximadamente 40 segundos. Liguei pra doula achando um pouco de exagero, que ainda não era a hora, mas como minha amiga disse que não iria me deixar sozinha e eu sabia que ela precisaria buscar os filhos na escola, liguei. A Raquel disse que as 17h chegaria. Mandei mensagem para a médica, que disse que também estava vindo pra cá.

17:30 todo mundo já estava aqui, inclusive meu marido com o Vítor, que ficou super assustado de chegar em casa e ver todo mundo, já que eu não liguei pra ele o dia todo e ele pensou que estava tudo no mesmo “pé” da hora do almoço. Vítor perguntou se eu estava doente e percebi que ele também estava assustado com a situação. Expliquei que a Mariah estava chegando e que estava tudo bem comigo. A médica conversou com ele, colocou o aparelho para escutar o coração da Mariah e ele ficou quietinho ouvindo.

Meu marido e ele foram tomar banho e eu pedi pra que ele ligasse pra minha cunhada e pedisse para levá-lo para casa dela, achei que era a melhor coisa a fazer no momento. E sem dúvida foi mesmo.

Eu não sabia mais de quanto em quanto tempo as contrações vinham e nem quanto tempo duravam. Sei que eu estava sempre com a sensação de que ainda estava bem longe do trabalho de parto ativo. Eu me sentia meio dopada. Estava cansada, com sono e quase dormia entre uma contração e outra. Perguntei pra minha médica:

– De quanto em quanto tempo as contrações precisam vim para eu estar em trabalho de parto ativo?

– Não acredito que você está me perguntando isso! Você já está em trabalho de parto ativo, Mari!

Foi aí que minha ficha caiu que eu realmente teria minha menina nos braços em algumas horas, e que, de fato, tinha chegado o dia tão esperado. Eram 18:30.

“É chegada a hora, vamos nos conhecer… Vou olhar sua alma e amar-te ainda mais… Agora quero ver você nascer, agora somos eu e você…” (Nascer – Isadora Canto)

Continue lendo:

Relato de parto domiciliar –  parte II

Relato de parto domiciliar –  parte III

Veja o vídeo com as fotos desse grande dia: Vídeo de parto domiciliar

Veja o vídeo onde eu conto como foi o parto: Vídeo do relato de parto domiciliar