Relato de parto natural no hospital

23 de fev de 2015

Este relato foi escrito pela Juliana Machado

Tive uma gravidez super tranquila, sem nenhum problema. Então comecei a pesquisar sobre tipos de parto e descobri o parto natural humanizado. Percebi que seria a melhor forma de a Letícia vir ao mundo. Trocamos de obstetra duas vezes durante o pré-natal, buscando um que realmente me ajudasse a ter um parto respeitoso, do jeito que eu queria e no meu tempo. Então já com quase 35 semanas, participamos do curso de preparação para o parto no GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa) e lá ficamos conhecendo ainda mais esse universo tão sagrado da gravidez e do parto. Descobrimos que em SP dá pra contar nos dedos os obstetras humanizados. Procuramos então a Dra. Juliana Giordano, que seria o nosso anjo. Ela é um ser humano incrível, que ama o que faz e respeita plenamente a gestante.

Eu já me sentia preparada e muito confiante para o parto natural. Antes de conhecer o GAMA, que orienta as futuras mães, eu morria de medo de cair nas mãos de um obstetra que se dizia humanizado, mas que na hora do parto realizasse intervenções desnecessárias, como episiotomia, analgesia, ocitocina sintética ou mesmo cesárea desnecessária. Também procurei uma doula, a Gabriela Barreto, para me acompanhar na gravidez e no parto, e ela foi outro anjo pra mim. Então o dia tão esperado chegou. No dia em que completei 40 semanas e 2 dias, tínhamos consulta com a Dra. Juliana às 9h. Na madrugada daquele dia, levantei várias vezes com cólicas e vontade de ir no banheiro. O intestino parecia já querer se esvaziar e eu sentia que a hora estava chegando. Também senti um pouco de líquido escorrendo pela perna, mas bem pouco.

Comentamos com a médica e ela falou que deviam ser os pródromos, ou seja, estava chegando a hora, mas poderia demorar ainda alguns dias. Antes de finalizar a consulta, ela perguntou se eu gostaria de fazer o exame de toque, e achamos que seria bom saber a dilatação. Ela viu que eu já estava com 4 cm, e durante o exame a bolsa estourou, saindo um líquido clarinho, ótimo sinal! Ela disse que eu estava progredindo muito bem, mas que não era hora de irmos pro hospital. Eu deveria ir pra casa, chamar a doula e aguardar as contrações ritmadas. Fomos almoçar no shopping ali perto e eu já comecei a sentir contrações mais doloridas, mas ainda suportáveis e bem espaçadas. Indo pra casa no carro, elas aumentavam cada vez mais e eu percebi que seria mesmo naquele dia! Fiquei com um pouco de medo da intensidade das contrações, mas em casa a Gabi me tranquilizava bastante e fazia massagens ótimas!

Tudo estava indo muito bem e eu progredia rápido. Enquanto isso, meu marido e a Gabi iam passando informações para a Dra. Ju, que queria aguardar o trabalho de parto ativo para dar entrada no hospital, evitando que lá quisessem fazer intervenções em mim e na Letícia. Então às 18h saímos de casa. Graças a Deus não tinha muito trânsito no caminho, apesar da hora do rush. Eu tentava não reclamar muito das dores no carro, pro Alê não se desesperar no volante, mas era difícil, já doíam muito as contrações. E a Gabi sempre do meu lado, me incentivando e dizendo que eu estava fazendo tudo certo. Chegamos no São Luiz às 18h45, e a Dra. Ju já nos aguardava e já tinha preparado minha entrada. Tive que pedir uma cadeira de rodas porque pra mim era mais confortável ficar sentada do que em pé.

Na recepção, todo mundo me olhava assustado, todas as gestantes com seus cabelos escovados e rostos maquiados prontas para suas cesárias marcadas olhavam pra aquela gestante desesperada e descabelada que queria parir como no tempo das avós… rsrs. Entrei direto na sala de cardiotoco pra verificar os batimentos cardíacos da Letícia (procedimento obrigatório do hospital antes da internação) e antes do exame a Dra. Ju já verificou que eu estava com 6 cm, então desanimei porque pensei “passei a tarde toda sofrendo pra conseguir só mais 2 cm?”. Lá fiquei por 50 min, me sentindo desconfortável na maca por causa das contrações e também com vontade de empurrar já. A enfermeira disse que não tinha problema eu empurrar. Tudo ok com o exame. Finalmente hora de subir pro delivery room.

Entrei na sala com a Dra. Ju e ela já pediu que a enfermeira enchesse a banheira. Na hora que entrei, me surpreendi com o alívio que ela me dava! Não quis mais sair dali. Isso eram 20h e meu marido e a doula foram direto se trocar e voltaram. Ficamos só nós quatro na sala da banheira… a luz bem baixa e todos me incentivando com muito carinho e toda a atenção. Me ofereceram água, picolé, gelatina, chocolate e frutas secas, mas eu não tinha vontade de comer. Lembrei que precisava de energia e me forcei a chupar o picolé e comer gelatina. As contrações já eram fortíssimas, e o intervalo entre elas quase não existia e eu mal conseguia descansar entre elas, a pressão embaixo era muito grande, parecia que a bebê ia sair por trás, uma sensação estranha! Comecei então a gritar como nunca e pensei que o hospital inteiro devia estar me ouvindo… mas me deixei levar pelo instinto e sentia que precisava pôr aquela dor pra fora. A Dra. Ju me incentivava a gritar, que era só assim que meu corpo deixaria a Letícia sair. E assim a Letícia descia cada vez mais… eu colocava a mão embaixo toda hora pra ver se ela estava chegando, mas não sentia nada e desanimava. Mas logo vinha outra contração e eu dava tudo de mim. Eu ficava dizendo que não ia mais aguentar, sentindo que aquilo não ia mais acabar. Mas os três do meu lado me deram muita força… e eu clamava a Deus pra me ajudar a ter forças e sei que Ele me atendia.

Foram duas horas intensas, e eu me surpreendia com a serenidade e a força do meu marido, que me apoiava a todo minuto dizendo que eu precisava continuar pela nossa filha, que ela já estava chegando, que faltava pouco. E depois de tudo ele me contou que estava morrendo de medo, que queria me tirar dali e acabar com a minha dor. Mas ele foi muito forte mesmo, um guerreiro. Porque não deve ser mesmo nada fácil ver alguém que você ama gritando de dor e dizendo que não vai mais aguentar e não poder fazer nada. A Dra. Juliana e a doula Gabi também foram supercarinhosas e fundamentais. As massagens da Gabi me ajudavam muito a suportar a dor. Então finalmente, depois de uma longa e dolorida contração, eu pude sentir um punhadinho de cabelo saindo de mim. Aquilo me deu uma força extraordinária, um vigor! Era minha filha chegando! Faltava pouco! Eu achei que o expulsivo iria demorar ainda, mas foi muito rápido. Tirei forças lá do fundo e empurrei a cabecinha dela, amparando meu períneo com a mão, como fazia quando treinava com o epi-no, ajoelhada na banheira. Mas a sensação era de que a cabeça não passaria e que eu quebraria no meio.

Senti o círculo de fogo e gritei mais do que nunca. Acho que precisei só de 2 forças pra cabeça sair. Todos se posicionaram pra pegar a Letícia. O corpinho escorregou e eu senti aquele alívio. Queria logo sentar e pegá-la. Eram 22h06 do dia 27 de março de 2014. A Dra. Ju me entregou a Letícia e meu marido chorou. Aquele momento parecia um sonho, foi surreal, não conseguia acreditar que era verdade, que eu tinha parido. Parecia estar num filme! Foi mágico, divino, inexplicável. A pediatra do hospital já estava lá. Ficamos uns 5 minutos parados naquela cena, contemplando a Letícia. Era muito cabeluda e branca… chorou só um pouquinho. A pediatra então pediu que o cordão fosse cortado porque ela tinha um parto de gêmeos na sequência. Meu marido então cortou. Que cena linda! A pediatra pegou a Letícia pra verificar seus sinais e a nota de Apgar foi 10/10. Graças a Deus tudo ok!

Meu marido conseguiu convencê-la a não pingar o colírio de nitrato e a não aspirá-la. Que ótimo! Letícia pesou 3,51 kg e mediu 52 cm! Supersaudável! Depois saí da banheira e fui pra maca para a dequitação da placenta. Comecei a sentir as cólicas enquanto a Letícia tentava mamar. A placenta demorou uns 20 minutos pra sair, mas a Dra. Ju verificou que faltava um pedaço dela e ela precisava tirar. Ela me deu anestesia local pra tentar tirar, mas sem sucesso. Tive que receber uma raqui pra ela poder fazer a curetagem, pois eu estava já perdendo sangue além do esperado. Ela tinha verificado que a laceração no períneo tinha sido mínima e eu não precisaria de pontos, mas como ela não sabia se o sangue que estava saindo era do útero ou da laceração, decidiu dar 2 pontinhos e depois conseguiu tirar os restos da placenta. Por causa da anestesia, minha pressão baixou demais e eu comecei a tremer. Mas no fim deu tudo certo. Mesmo com esse probleminha e a necessidade da anestesia (que eu tanto quis evitar), foi um parto bem-sucedido e maravilhoso! A Dra. Ju nos tranquilizava todo o tempo, dizendo que não havia sido nada muito grave. Eu estava em êxtase, numa felicidade sem tamanho! Meu marido não saiu de perto da Letícia. Tudo parecia um sonho, mas era mais que real! Graças a Deus! Tivemos que ficar no hospital por 3 dias pra eu receber ferro, pois deu anemia devido à perda de sangue, mas a Dra. Ju vinha me ver toda manhã pra me tratar e tudo ia bem. Eu só estava cansada. A médica nos aconselhou a pedir que a Letícia não ficasse no berçário, que ficasse sempre com a gente. Afinal o bebê tem que ficar com os pais, o início do vínculo é muito importante. Já estou em casa, superbem, fazendo tudo. A Letícia mama com vigor e é um bebê muito tranquilo! Nosso orgulho!

Sinto que corri uma maratona, ou que escalei o Everest, ou que atravessei a nado o canal da Mancha, porque é essa mesmo a sensação. De superação. De vitória. Não desejei esse tipo de parto com o intuito de ser radical ou de mostrar que sou forte e corajosa, mas porque entendi que esse era o melhor pra mim e minha filha.

Agradeço primeiramente a Deus, que nos permitiu conceber a Letícia e nos guiou no caminho de um parto saudável e natural.

Agradeço ao meu marido, que me apoiou na escolha por um parto natural e me acompanhou desde o começo dessa descoberta, mesmo com seus receios. Te amo ainda mais por ter aceitado participar desse momento tão sagrado na nossa vida.

Agradeço à Dra. Juliana, que foi uma médica humanizada desde a primeira consulta, em quem pude confiar plenamente, com seu jeito meigo e firme de ser. Me fez ver que eu podia sim ter um parto natural. Segurou minha mão e me abraçou com muito carinho no trabalho de parto, como uma grande amiga e não como médica.

Agradeço à doula Gabriela, que desde o início nos ajudou a encontrar uma médica humanizada e aconselhou muita coisa ligada à gravidez e ao parto. Sempre muito atenciosa, carinhosa e prestativa! Também segurava minha mão quando mais precisava de força.

Agradeço ao GAMA, que me fez enxergar o parto como um evento fisiológico e natural e que nós, mulheres, podemos sim parir com dignidade. Vocês fazem a diferença!

Enfim, mulheres, Deus nos deu o poder e a oportunidade de parir naturalmente! Aproveitem esta chance, porque parir é algo divino, sagrado. Não tenham medo porque nós podemos sim! Pesquisem bastante sobre parto durante a gravidez e permitam ao seu bebê o direito de nascer na hora que ele achar melhor, que estiver pronto para vir a este mundo, se não houver grandes problemas na gravidez. Pensem bem antes de optar por uma cesárea eletiva apenas “para se livrar da dor” e desconfiem do obstetra que alega falta de dilatação, pouco líquido, circular de cordão, placenta envelhecida e outros mitos (cesárea é uma cirurgia e toda cirurgia envolve riscos, tanto pra você quanto pro bebê) e muito cuidado com os obstetras que dizem fazer parto normal, pois eles podem interferir no seu parto de forma desnecessária, invasiva e violenta. E, se vocês optarem pelo parto natural, não se importem com aqueles que vão chamar vocês de loucas, retrógradas e inconsequentes (pois vão mesmo), vão em frente e lutem por isso. Vocês não vão se arrepender!

parto natural é possivel

Beijos,