Relato de parto normal após cesárea – II

06 de dez de 2014

Continuação do relato, se você não leu:

Relato de parto normal após cesárea – I

Por volta das 5h, as contrações já estavam bem fortes, mas em casa, na companhia de pessoas queridas e amorosas, permaneci tranquila e segura. Fizemos o toque e já estava com 6cm de dilatação. Porém, até esse horário não havia conseguido contato com o obstetra. Fui para o chuveiro, preparar-me para seguir para o hospital.

A falta de contato com obstetra começou a me deixar ansiosa e nervosa. O caminho até o hospital foi rápido e muito doloroso – contrações muito intensas. Chegando ao PS do hospital, fomos muito mal atendidos. Estava me contorcendo de dor e ninguém se compadecia em me atender o mais rápido possível. O obstetra de plantão demorou a chegar e nos tratou de maneira fria, deselegante e pouquíssimo profissional. Meu marido já estava nervoso. O medico me mandou deitar para fazer o toque. Qual não foi nossa surpresa? A dilatação havia regredido. Segundo o médico, estava com pouco mais de 2cm de dilatação! Desesperei-me. Fiquei nervosa. Quis voltar para casa e ganhar minha bebê lá. Meu marido tentou me dissuadir, que deveríamos ir a outro hospital. Bom, o médico nos deixou sem qualquer orientação e eu decidi que ele não faria meu parto de jeito nenhum.

Saímos de lá para outro hospital, do outro lado da cidade, uma maternidade muito conhecida. Chegando lá, eu sentido dores horrorosas, não havia médico obstetra de plantão. Era o momento da troca da equipe e a médica da escala ainda estava a caminho. Ficamos, eu, marido e doula, sentados na recepção. Eu: morta de dor, vomitando sem parar e meu fiéis escudeiros me amparando a todo momento. Isso já eram 7h da manhã. Foi quando conseguimos contato com o obstetra. A médica do plantão chegou e tudo foi acontecendo ao mesmo tempo. Eu não conseguia acompanhar os acontecimentos. Estava imersa num torpor descomunal. A médica nos atendeu de uma maneira mais humana. Fez o toque e de fato estava com apenas 2cm de dilatação. Ela falou com meu médico porque eu repetia que não ficaria internada; que não queria uma cesariana; que queria ir pra minha casa. Ela acordou com meu obstetra por telefone que me deixaria ir. Ele pediu para falar comigo. Ele me perguntou como eu estava e o qual era meu desejo. Eu afirmei categórica: quero ir pra casa! Não sabia quanto tempo demoraria para meu trabalho de parto engrenar novamente. Não queria correr o risco de partir para uma cesariana por me sentir pressionada no ambiente hospitalar. Todos me respeitaram e partimos para voltar para casa. Eu estava muito nervosa e sentido dor demais.

Enquanto meu marido foi buscar o carro – contrariado, pois achava mais seguro que eu ficasse internada – minha doula conversou comigo de maneira muito segura e afetuosa. Ela disse: “Ju, vamos internar? Eu ficarei com vocês. Lá, você ficará mais calma, tomará um banho quente e seu organismo voltará a responder. Eu garanto”. Mudei de idéia. Marido chegou e resolvi ficar internada. Voltamos ao primeiro hospital, pois era o indicado pelo meu obstetra. Seguimos para uma internação rápida. Meu médico deixou instruções claras de ninguém me incomodar no quarto até ele chegar.

Instalamo-nos, por volta das 9h30 de segunda-feira, e começamos tudo, quase que da estaca zero. Fui para o chuveiro, para tentar me acalmar e me entregar ao meu trabalho de parto novamente. Orei a Deus e pedi auxílio. Com as luzes apagadas e cercada do carinho e da compreensão do meu marido e da minha doula, religuei-me com meu corpo e com minha bebê.

O obstetra chegou às 10h30 e foi me examinar. Auscultou a bebê que seguia forte e colaboradora. Fez o toque. A dilatação estava em franco processo de desenvolvimento: 5cm. Animei-me, mas estava muito fraca. Vomitava sem parar. Não conseguia comer ou beber nada. Não conseguia abrir os olhos. Concentrei-me em respirar fundo, vocalizar e estar em plena entrega ao meu trabalho de parto. A cada contração, marido e doula me seguravam, me massageavam e me davam palavras de apoio e segurança.

Uma hora depois, novo exame do obstetra: batimentos do bebê dentro do esperado e 7 cm de dilatação. Percebemos que a bolsa havia estourado. Já estava sentindo o que na minha cabeça era o auge da dor. Enganei-me. Com a bolsa rota, as contrações vinham cada vez mais longas e mais encadeadas. Quando eu lia os relatos durante minha preparação para o parto, muitas mães falavam de uma tal “partolândia”. Eu não conseguia entender até hoje. De fato, entramos num universo paralelo, num caminho sem volta. De lá, só podemos ser resgatadas por nosso filhos, recém-nascidos.

Minha cabeça não conseguia estabelecer um pensamento coerente, além daquele mais primitivo de parir a qualquer custo. Só conseguia sentir o amor e o afeto dos meus acompanhantes e pensar em Deus.

Foi quando às 13h00, o médico traz a mais esperada notícia: dilatação total. Mas ainda faltava parte da informação: a neném não estava centralizada. Ele me pedia para fazer força, para a neném descer. Eu dizia para ele que estava muito fraca; que não estava conseguindo fazer a tal força. Aí, ele complementa: “Se ela não se posicionar, vamos fazer a cirurgia!” Oi? Cesariana? Após 13h de trabalho de parto, às custas de muito suor e sangue? Ficou maluco, né? Ele disse: “estarei te esperando no centro cirúrgico!”

Eu estava muito cansada, mentalmente e fisicamente. Disse para o obstetra que não aguentaria fazer força; que estava muito difícil. Todavia, a possibilidade de partir para uma cesariana renovou minhas forças e minha mente no sentido de parir a qualquer preço. Ele sabia que eu precisava de “incentivo”.

Quando o médico deixou o quarto, minha doula me disse: “você aguenta agachar e fazer força para baixo durante as contrações?” Eu disse: “não aguento, mas vou fazer”. Ela e meu marido me ajudavam a agachar e me levantavam ao final de cada contração. Meus olhos não se abriam. Meu coração estava mil por hora. Fizemos uns 6 agachamentos até o padioleiro chegar para me levar a sala de parto. Nem sei como me deitei na maca. Fiquei encolhida e só ouvia o frissom da equipe do hospital comemorando que haveria um parto normal a qualquer momento.

Entramos na sala de parto e o médico já estava pronto para darmos prosseguimento. Ele fez o toque e constatou que a bebê já estava no local certinho e pronta para nascer. Explicou-me como deveria fazer a força. Dali em diante entreguei-me mais que totalmente. Tirei forças não sei de onde para ajudar minha menininha a nascer. Precisamos da episiotomia, já que fazia força e não conseguia segurar a intensidade do empurrão até o final da contração. Após tal procedimento, na próxima contração a cabecinha da minha linda saiu.

Fomos informados que ela estava com duas circulares de cordão no pescoço. O médico não nos assustou. Disse que estava tudo bem; que retiraria o cordão e daríamos continuidade ao parto normalmente; que ela estava bem.

No próximo empurrão, senti um calor molhado saindo de mim. Minha pequena nascera! Tudo que havia sentido até aquele momento, passara. Enchi-me de uma alegria e uma emoção que só de lembrar me levam às lagrimas.

Nasceu Isabela, num trabalho em equipe, com 4.015kg e 52cm, num momento forte e cheio de amor e superação;

Obrigada, Deus, pelo privilégio de gerar uma vida e pela responsabilidade de cuidar dela e protege-la com minha própria vida, se necessário;

Obrigada, marido, pelo amor e apoio incondicionais; por estar comigo e viver cada pedacinho desse sonho. Você superou todas as expectativas! Você foi esteio para mim e provou mais uma vez seu amor por mim e por nossa família;

Obrigada, mãe, por cuidar do meu príncipe melhor que eu e me deixar tranquila para me preparar para a chegada da nossa princesa, e pela companhia nos últimos dias de espera pelo trabalho de parto;

Obrigada, melhor amiga, por sua experiência e consultorias transmitidas com tanto afinco e amor;

Obrigada, equipe Nascentia, por realizarem um trabalho tão encantador e tão relevante num cenário de modernidade onde as mulheres precisam do apoio de outras mulheres para realizarem seu desejo de parir;

Obrigada, Lara, por sua ajuda primordial, pois com seu conhecimento técnico, sua experiência, seu amor, seu carinho, seu afeto e sua sabedoria você nos fez “segurar a onda” e “ dar conta do recado”. Você foi um anjo que Deus mandou para nos acompanhar nesse momento;

Obrigada ao obstetra que me respeitou e me ajudou a realizar meu desejo de parir.

E foi assim. Vivi um sonho, muito mais real do que eu podia imaginar.

PN apos cesarea

Beijos,