Violência Obstétrica em parto prematuro

28 de jun de 2014

Essa história é da Luciana Moreira.

Engravidei a primeira vez aos 17 anos, em 2012. Eu morava em cidade diferente da minha família por causa da faculdade,  dividia um apartamento com 2 amigas que estudavam comigo.

Minha gestação já era um tanto complicada porque eu tenho asma. Tinha um cansaço imeeeenso, qualquer mínimo esforço já me deixava tonta. Até fui dispensada das aulas práticas da faculdade (enfermagem) porque eu nao aguentava passar 5 minutos em pé. Eu tentava repousar o máximo. E mesmo com meu problema de saúde, a gravidez estava indo bem. Meu bebê estava se desenvolvendo bem e saudável. Até que na noite do dia 18 de outubro de 2012, com 26 semanas de gestação, tive uma crise de falta de ar.

Eu estava falando no celular com meu marido (na época namorado) que morava a uns 200 e poucos km da minha cidade, e do nada tive uma crise. Eu estava no meu quarto deitada na cama, minhas amigas já estavam dormindo. Então desmaiei e lá mesmo fiquei até acordar, meia hora depois, mais ou menos. Quando acordei vi meu celular no chão, tinha uma mensagem do meu namorado perguntando pq eu tinha parado de falar com ele e se estava tudo bem. Tentei ligar de novo pra ele, mas ele nao atendeu.

1h da madrugada comecei a sentir fortes dores nas costas na altura do quadril. Parecia que tinha um peso me puxando pra baixo. Consegui levantar e ir ao banheiro. Sentia uma vontade enorme de fazer xixi. Mas so saiu uma gotinha. Bati na porta dos quartos tentando falar com minhas amigas. Nenhuma acordou. Eu tava sem força,  e nao consegui bater na porta de um jeito que elas me escutassem. Então continuei só. E eu pedia a Deus que me mostrasse o que fazer. Liguei pra minha mãe,  que morava em outro estado, e falei o q tava acontecendo. Percebi que ela tava nervosa, mas nao queria me agitar mais. Entrou em contato com meu avô,  que morava perto da minha cidade, e pediu que fosse me buscar pra levar ao hospital. Enquanto ele nao chegava,  as dores foram aumentando,  até eu quase nao conseguir andar. Fui me arrastando até o banheiro novamente, fiz xixi e quando levantei do vaso, vi muito sangue escorrendo pelas minhas pernas. Voltei pra cama e esperei meu avô.  Minha amiga acordou por causa das luzes acesas. Ficou comigo na cama. Quando ele chegou (5:30), me levou com ajuda da minha amiga pro carro (desceram 3 andares de escada comigo nos braços). Chegamos na maternidade, fui muito mal atendida.

O médico e as enfermeiras estavam dormindo e ficaram de mau humor porque os acordei. Fui pra sala do médico em uma cadeira de rodas. Cheguei lá,  ele disse: “deita ai nessa maca”. Falei: “doutor, estou com muita dor. Nao consigo sozinha. O sr pode me ajudar?” Ele grosseiramente respondeu: “na hora de fazer, você pediu ajuda? Nao. Entao suba sozinha!”. Depois de muito sacrificio consegui deitar. Ele fez um toque e disse: “ah, ta ja expulsando. 8cm de dilatação. Vai já nascer. Leva ela -falou pra enfermeira”. Na minha cabeça passava tanta coisa… “eu devia ter ligado pro samu assim q começaram as dores!” Mas quem disse q na hora eu pensei nisso?… fui pra sala de parto sozinha, sem acompanhante.

Me colocaram la numa cama, aplicaram um soro e me deram um comprimido e uma injeção pra amadurecer o pulmao do meu bebê. Fiquei sozinha na sala, chorando minha dor e suplicando por ajuda. A enfermeira voltou pra dormir no leito ao lado do meu. Comecei a sentir vontade de fazer força. E às 8h minha bolsa estourou. As dores passaram.

Depois de um tempo, senti uma coisinha na minha vagina. Coloquei a mão e senti um pezinho!!! Gritei: “meu filho ta nascendo, alguém me ajudee!!” Ninguém veio. Pari meu filho sozinha. So quando ele nasceu, que eu falei: “meu filho nasceu! Venha socorrer ele por favor!” Uma enfermeira chegou, pegou ele e levou. Depois outra chegou e me pediu q levantasse daquela cama pra ir pra outra. Como assim? Eu tinha acabado de parir! Nao fazia nem 5 minutos! Eu precisava me recompor. “Vai, levanta!”- ela disse. Levantei e a placenta caiu nos meus pés! Ela juntou, me sentou na cadeira de rodas e levou pra outra cama. Pouco tempo depois, a enfermeira que levou meu filho chegou e disse: “morreu, viu? Era mto novinho”. Gente, como um profissional da saúde consegue dar uma notícia tão triste tão friamente? Cadê a ética e o respeito? Chorei e pedi que ela o trouxesse para mim. Ela disse: “ah, ja embalei!”.

Comecei a gritar por meu avô. Isso mesmo, gritei! Eu já não suportava mais ser tão maltratada. E depois de uns 3 gritos ele apareceu correndo. Contei pra ele o que tinha acontecido. E ele, indignado, foi buscar meu filho pra eu ver. Trouxe ele, desembalei, e abracei. Beijei, alisei e chorei abraçada com ele. Falei: “Miguel, a mamãe não sabe o porquê de tudo isso. Mas obrigada pelas 26 semanas que vc esteve comigo. Você me ensinou muita coisa… mamãe te ama muito! Você agora é o meu anjo. Uma estrelinha lá no céu. Fica em paz!” E ficamos eu, ele e meu avô.

Choramos nossa dor. E o devolvemos a Deus. Fui muito humilhada e maltratada. Fiquei muito mal… em dezembro de 2012, véspera de natal, descobri que estava grávida novamente! Foi um baque pra mim. Ligeira eu, você pode pensar. Eu também pensei. Mas entreguei nas mãos de Deus. E só pedi que eu não passasse por tudo aquilo novamente, porque eu nao aguentaria. Tranquei a faculdade, casei, fiz acompanhamento pré-natal de alto risco, específico para gestantes asmáticas. Fiz uso de corticoide,  pelo nosso bem.

Meu filho nasceu de 38 semanas de gestação, de parto normal humanizado,  fui muito bem assistida,  meu marido e minha mãe assistiram ao parto. Nada de episiotomia nem intervenções. Meu filho veio ao mundo de uma maneira linda e saudável pra nós dois, tudo diferente do parto anterior. Veio para o meu colo assim que nasceu, mamou, nao fomos separados por 1 minuto sequer. Todos os procedimentos feitos nele, foram do meu lado. Nao foi pra encubadora, nao se afastou de mim… Deus é muito bom!

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Victor nasceu com 2,715kg e 47,5cm. Pequenininho, por causa do uso de corticoide que eu fiz, mas super saudável. Apgar 9 e 10. Nasceu no domingo dia 11/08/13 às 19:36 e na terça recebemos alta. Hoje ele é um bebê peralta de 10 meses. Digo que ele é minha cura. Hoje entendo porque Deus me deu ele tao rápido. Porque se eu nao o tivesse,  talvez nao estivesse recuperada psicologicamente da perda de Miguel. Eu sentiria muita falta dele… não que eu não sinta.

Sempre lembro dele. Mas hoje essa falta é como uma cicatriz, que a gente vê a marca, mas nao sente mais aquela dor. Sei que ele está em um ótimo lugar. E tem um lugarzinho no meu coração que é dele e sempre será! Victor veio pra ser o meu afago, consolo… pra me sarar! Deus sabe o que faz! Consigo lembrar de tudo que aconteceu mas sem dor. Guardo como um aprendizado. E hoje estou muito feliz! E grata a Deus pela forma maravilhosa que Ele conduz tudo.

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Você também tem uma história para contar?? Me escreva mah@vidadegestanteemae.com.br

Depois do nascimento do seu primeiro filho, Luciana registrou boletim de ocorrência e a equipe que a atendeu foi demitida do hospital.

Pelo menos isso, né?

beijos,