Violência obstétrica em parto normal

05 de jun de 2013

Este relato de parto normal nos mostra o quanto podemos sofrer violência obstétrica sem nos darmos conta. Quem escreveu preferiu não se identificar.

Depois de 1 ano e 7 meses de tentativas, muito choro, um diagnóstico de infertilidade do meu marido, consultas com especialistas e me conformar com a adoção (inclusive começamos a juntar os documentos), veio a melhor surpresa da minha vida: POSITIVO!

Não senti dificuldades em escolher um obstetra, afinal ele já era meu médico há 3 anos.

No primeiro ultrassom, sofri a primeira violência obstétrica. Imagina a minha expectativa em fazer esse ultrassom! Tinha muito medo de que algo pudesse estar errado. Meu marido todo bobo contou ao médico o diagnóstico de infertilidade. E o médico rindo, insinuou que aquele filho não era dele! Meu marido até achou engraçado mas eu fiquei bem tensa… e se meu marido começasse a desconfiar de mim? Mas ele jamais pensou nisso.

A gravidez transcorreu perfeitamente. Me sentia bem. Somente os desconfortos comuns de uma gravidez saudável.

Por volta do sétimo mês de gravidez, falei pro médico que queria um parto normal. Pra mim parecia óbvio: Vai sair, por onde entrou! E o médico dizia que tudo bem, porém a minha bebê estava sentada.

Mas… a bebê virou! E eu estava muito convicta da minha escolha. O médico sempre dizia ser ainda muito cedo para se preocupar com o parto.

No dia que completei 35 semanas, fui a consulta de rotina. Durante a consulta, comentei que estava sentindo muitas contrações de treinamento, e tive uma bem na hora que ele media minha barriga. O médico disse que era preciso fazer um exame de toque.

Ao fazer o exame, notei a cara de preocupação dele. Ele chamou a enfermeira e pediu compressas. Eu via os paninhos saindo sujos de sangue. Comecei a ficar apavorada e questionar o que estava acontecendo. E ele foi bem duro na resposta: Espera! Estou examinando!

Fiquei lá, quieta, rezando pra que tudo estivesse bem… E ele disse: Você está em franco trabalho de parto! Com 3 cm!… Falou num tom meio bravo, como se eu tivesse alguma culpa sobre o que acontecia.

Conversou comigo, fez eu chamar meu marido, conversou com ele, entregou a guia de internação e mandou que fôssemos para o hospital. Eu não sentia absolutamente nada!

Fui pra casa, tomei banho, arrumei as malas… Meu marido tomou banho, fez a barba.

Passei com o médico 13h. Cheguei ao hospital as 15:30. E ele me esperava na recepção, todo preocupado.

Fui para o quarto e logo vieram as enfermeiras. Tira a roupa, põe a camisola.

Fiz um exame de cardiotocografia.

Não sentia nada, somente contrações de treinamento.

Ligaram o soro com ocitocina.

Duas auxiliares de enfermagem vieram fazer a tricotomia. Eu pedia toda hora para elas terem cuidado, irem mais devagar. E elas respondiam que faziam aquilo todo dia.

Fiquei no quarto com meus pais, meu marido e minha irmã.

As 19h o médico veio me examinar e eu continuava com os mesmos 3 cm. Nada tinha mudado. Ele abriu toda a ocitocina.

As contrações começaram a aumentar, mas sem dor.

As 21h ele veio examinar de novo. Disse que nada tinha mudado e que de acordo com as regras do hospital a partir dessa hora não poderiam ficar visitas. Disse que achava que tava demorando muito, que ele estava preocupado, que a bebê era prematura, que estava todo mundo esperando e eu ia ficar sozinha. Achava melhor fazer uma cesárea.

Acabei concordando…

Ele então disse que ia romper a bolsa porque precisava ver como estava o líquido. E fez.

Fiquei com minha família no quarto e todos me consolavam que eu tinha tentado. E minha mãe dizia que ela também fez cesárea por não ter dilatação.

1h depois, as 22h, vieram me levar para o Centro Cirúrgico. Estava começando a sentir contrações dolorosas, mas leves.

Ao chegar no centro cirúrgico disse para o médico que estava com dor. E ele falou que já ia anestesiar.

O anestesista mandou eu deitar de lado e abraçar os joelhos, num tom bem autoritário. Senti medo, dele e do procedimento. Fiquei de lado e lembro que ele demorou muitooooo. Limpava, e conversava sobre um churrasco. E eu fazendo o maior esforço do mundo para ficar quieta durante as contrações e rezando para que ele acabasse logo com aquilo. Mais uma violência obstétrica.

Queria meu marido comigo, mas ele só poderia entrar na hora que o bebê estivesse nascendo.

As contrações começaram aumentar e aquela posição era muito incômoda, comecei a chorar. E ele a gritar comigo: Fica quieta! Quer ficar aleijada?

Uma auxiliar de enfermagem veio perto de mim e começou a fazer carinho em mim. Um anjo. Segurou na minha mão e eu chorava. Veio uma contração bem forte e eu soltei um gemido. Meu médico entrou bem na hora e falou: Tá doendo tanto assim?

Eu disse que estava e ele falou para o anestesista que queria fazer outro toque porque eu queria parto normal. O anestesista ficou muito bravo. Que já tinha aberto o material, que ia perder tudo… Não sei o que meu médico respondeu, mas ele saiu da sala.

O médico fez o toque e disse: Está com 6cm! Dá pra fazer normal, quer? Eu fiquei muito feliz e respondi que queria sim!!!

O anestesista voltou e mandou eu ficar de lado de novo. Olhei pra auxiliar-anjo pedindo socorro e ela veio segurar minha mão de novo, eu chorava e gemia a cada contração. O anestesista gritava comigo: Fica quieta! Não se mexe!!!

Ele acabou e eu pude me virar. O médico mandou eu abrir as pernas e fazer força. Eu fazia. E ele dizia: Não é assim! Você tá fazendo errado! Você tá fazendo força na garganta! Força!

Até que fiz uma força e ele disse que era aquela. Tentei me concentrar para fazer sempre certo. Ele colocou as perneiras e amarrou minhas pernas. Aquela posição era péssima! Estava presa e imobilizada. E não fazia ideia de que isso era também uma violência obstétrica.

Fazia força quando o médico mandava. Não sentia mais as contrações. E só conseguia prestar atenção na dor que sentia nas pernas.

Rezava e pedia pelo amor de Deus pra isso terminar. Rezava e pedia a minha filha que nascesse rápido, que me ajudasse.

O médico disse que tinha xixi na minha bexiga e que isso podia estar atrapalhando a bebê de passar. E que ele ia passar uma sondinha de alívio. Implorei pra ele não fazer, fiquei com medo de doer. Mas ele disse que eu não ia sentir pois estava anestesiada e realmente não senti.

Sentia o médico colocar os dedos na minha vagina e puxar para os lados, me abrindo.

Meu marido chegou na sala, filmando… Me senti constrangida, tava feia, descabelada, suada…e não sabia fazer força…

Até que o médico disse que podia ver os cabelinhos dela. Fiquei muito feliz e aquilo me deu mais força. Fiz 3 forças. E o médico me disse: Ela está há muito tempo aqui, você precisa fazer ela nascer agora, vai sufocar!

Fiquei apavorada. Me esforcei ao máximo. Sentia o médico puxando.

Uma enfermeira que estava na sala subiu na minha barriga e apertava para baixo, doeu muito.

Até que ela nasceu! Eram 22:41.

Chorei, muito, chorei alto. Um choro de alívio, que tudo tinha acabado. O medo de não ser mãe, o medo de perder o bebê, o medo de o bebê nascer morto.

Ouvi o choro da bebê, mas não a vi. Meu marido me beijava e isso me dava um pouquinho de conforto. Não sei se teria conseguido se ele não estivesse comigo.

O médico começou a puxar o cordão e apertar minha barriga. Senti a placenta sair.

Ele disse que ia me dar uns pontinhos, depois eu vi, 12 pontinhos, só 12…

O pediatra veio me mostrar minha filha, embrulhadinha, de touquinha. Passei a mão no rostinho dela, a mão que estava solta pois a outra estava presa com o aparelho de pressão. Aqueles fios no meu peito, dos monitores, também não permitiam o mínimo movimento. Foi muito rápido e logo o pediatra levou e meu marido foi atrás.

Comecei a sentir muita dor. O médico estava costurando e eu sentia a agulha. Doía muito… Doía muito a minha perna… Doía muito meu coração… Eu chorava… E ele dizia: To acabando, espera um pouco.

Ele acabou e foram me levar pro quarto. Foi bom ver toda a minha família feliz. Mas eles já foram embora dali, não puderam me acompanhar até o quarto.

As auxiliares me avisaram que eu não podia levantar porque o anestesista tinha feito um pouco de raqui. Meu marido ia toda hora ver a bebê no berçário e me falava como ela era linda. Apesar de prematura, de 35 semanas, tinha 45cm e 2480g.

Dormi, dormi pesado, estava muito cansada e aliviada por tudo ter acabado.

As 3h da manhã, ouvi um barulho no quarto e quando abri o olho a luz estava acesa. Não conseguia enxergar. Só vi que era um homem muito alto. E ele disse: ó, a bebê nasceu prematura e estava cansadinha, mandei pra UTI, amanhã o pediatra do plantão vem conversar com vocês, boa noite. E saiu… eu e meu marido ficamos desesperados.

Não sei dizer o que fizemos depois e como passamos o dia. Sei que as horas foram passando e ninguém me dava notícias da bebê. Perguntava pra todo mundo e só diziam que o pediatra do plantão viria falar com a gente. Eu só chorava, achava que a bebê tinha morrido e estavam me escondendo.

As 15h o pediatra veio falar com a gente e disse que as 16h podíamos visita-la. Disse que ela nasceu cansadinha e na UTI fizeram exames e detectaram uma infecção. Que ela ia ficar lá, sem previsão de alta.

Fomos na hora da visita, senti muito medo e muita tristeza. Ver a pequena ali na incubadora, tão indefesa, tão frágil… ela estava com sonda, com oxigênio, cateter, monitores… Não tive coragem de encostar nela. Tinha muito medo de ela morrer.

A visita era diária, por apenas 15 minutos.

Pedi pro meu marido comprar uma bomba de tirar leite. Queria muito amamentar e não queria que o leite secasse, porém eu tentava, tentava e não saía nada.

Fui pra casa e a bebê ficou no hospital. Foram 10 dias de muito choro e sofrimento. Passava o dia todo sem notícias e podia ficar só por 15 minutos no hospital.

No 11º. Dia, pude ir para amamentar. Chegava as 7:30 e ficava até as 21h. Eu ficava aguardando na recepção e eles me chamavam a cada 3h. Podia ficar 20 minutos com ela. Foi muito difícil pois ficava sozinha e na lanchonete do hospital só tinha salgadinhos.

Hoje, olhando tudo o que passei, só agradeço por não ter que passar tudo de novo. Por ter acabado. Não tenho nenhuma lembrança feliz desse período, tudo foi muito difícil e doloroso. Mas me sinto uma vitoriosa. Se consegui meu parto normal e consegui amamentar, foi por mérito meu. Eu batalhei por isso. Ninguém me ajudou.

Gostaria de divulgar esse relato para que outras mulheres possam se informar e correr atrás enquanto é tempo! É muito triste você não ter lembranças boas do dia que seu bebê nasceu…

Fonte foto: Carla Raiter para o Projeto 1:4

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Beijos,